A fruta do Cerrado que ganhou nova vida com criação de cosmético sustentável

Casca de bocaiúva vira ingrediente para cosmético. Acervo dos pesquisadores do LPPFB Toneladas de casca de bocaiúva são descartadas após o processamento do...

A fruta do Cerrado que ganhou nova vida com criação de cosmético sustentável
A fruta do Cerrado que ganhou nova vida com criação de cosmético sustentável (Foto: Reprodução)

Casca de bocaiúva vira ingrediente para cosmético. Acervo dos pesquisadores do LPPFB Toneladas de casca de bocaiúva são descartadas após o processamento do fruto e normalmente acabam como resíduo agroindustrial. Pesquisadores da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), no entanto, transformaram esse material em uma formulação cosmética que reúne extrato antioxidante e partículas esfoliantes naturais. A proposta agrega valor à matéria-prima e abre novas possibilidades para a cadeia produtiva da bocaiúva no estado. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Segundo a professora Maria Lígia, a ideia que deu origem ao Acrodermo nasceu de uma pergunta: "por que aproveitar apenas parte da bocaiúva se o próprio fruto ainda oferece possibilidades pouco exploradas?" Agora no g1 Segundo ela, durante muitos anos a atenção esteve concentrada na polpa e na amêndoa, de onde são extraídos óleos e componentes utilizados na alimentação. A casca, por outro lado, era tratada como resíduo do processamento. A partir dessa observação, a equipe passou a investigar novas formas de aproveitamento do material. “A proposta passou a ser aproveitar praticamente toda a matéria-prima, transformando o que seria lixo em um ativo cosmético de maior valor agregado”, explica. As pesquisas começaram no Laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Alimentos e Nutrição (Facfan) da UFMS e avançaram à medida que a equipe ampliou o contato com pequenos produtores e cooperativas fornecedoras de bocaiúva. A aproximação ajudou os pesquisadores a entender melhor o potencial da casca e a ampliar a proposta inicial, incluindo aspectos relacionados à sustentabilidade e à valorização da cadeia produtiva regional. Segundo o biólogo Antolim Penha Martinez Junior, a escolha da bocaiúva também tem relação com a importância regional do fruto. A espécie está presente na alimentação, na cultura e nas paisagens do Cerrado e do Pantanal. Embora a polpa e a amêndoa já tenham sido estudadas, a casca ainda é pouco explorada pela pesquisa científica. “Trabalhar com ela é, ao mesmo tempo, valorizar a biodiversidade regional e mostrar que espécie nativa não é sinônimo de matéria-prima limitada”, afirma. Ao transformar um resíduo agroindustrial em matéria-prima para a indústria cosmética, a pesquisa mostra uma possibilidade de aproveitamento da biodiversidade regional para gerar novos produtos e agregar valor à cadeia produtiva da bocaiúva. Da casca ao cosmético Embora a bocaiúva seja conhecida pelos frutos utilizados na alimentação, a casca, que normalmente é descartada, também apresenta características que podem ser aproveitadas em aplicações cosméticas. Essa possibilidade chamou a atenção da equipe durante o desenvolvimento do Acrodermo. Segundo Antolim, a casca permite obter dois ingredientes diferentes a partir do mesmo resíduo. “É uma matéria-prima que rende duas funções cosméticas a partir do mesmo resíduo: o extrato antioxidante e a partícula esfoliante”. Os compostos antioxidantes presentes na casca ajudam a neutralizar o estresse oxidativo associado ao envelhecimento da pele e à perda de firmeza. Por isso, despertam interesse para formulações destinadas aos cuidados faciais e corporais. Após a extração desses compostos, o material sólido que resta também pode ser processado para dar origem a partículas esfoliantes naturais, utilizadas na remoção de células mortas da pele. Os testes realizados em laboratório demonstraram atividade antioxidante do extrato em diferentes ensaios, além de indicarem potencial anti-inflamatório e segurança nas concentrações avaliadas em modelos celulares. A equipe também desenvolveu os primeiros protótipos com o extrato antioxidante e as partículas esfoliantes obtidas da casca da bocaiúva na mesma formulação. “A aparência, a textura e a estabilidade inicial já apontam que a bocaiúva tem, sim, potencial como ingrediente natural para cosméticos”, avalia o farmacêutico Lucas Rannier Melo de Andrade. Os resultados indicam que a casca pode ser aproveitada em diferentes etapas, permitindo a obtenção de mais de um ingrediente para uma mesma formulação. Economia circular O Acrodermo também propõe uma forma de ampliar o aproveitamento da bocaiúva. Em vez de descartar a casca após o processamento do fruto, a pesquisa utiliza o material em diferentes etapas, aumentando seu aproveitamento e reduzindo a geração de resíduos. Segundo Maria Lígia, a proposta segue princípios da economia circular, em que um mesmo recurso é utilizado pelo maior tempo possível para gerar novos produtos e reduzir desperdícios. “É quase um duplo aproveitamento da mesma matéria-prima, o que aproxima o projeto dos princípios da economia circular”. No processo desenvolvido pela equipe, a casca é utilizada inicialmente para a obtenção do extrato antioxidante. Depois dessa etapa, o material sólido remanescente passa por outro processamento e se transforma em partículas esfoliantes naturais incorporadas à formulação cosmética. Dessa forma, a proposta busca aproveitar praticamente toda a matéria-prima, reduzir resíduos e aumentar o valor agregado do fruto. O modelo também pode contribuir para a substituição de partículas esfoliantes sintéticas por alternativas vegetais e biodegradáveis. Do ponto de vista econômico, a pesquisa transforma a casca, que não possui valor comercial após o processamento, em um possível insumo para novos produtos. O Laboratório da Facfan mantém parcerias com pequenas comunidades extrativistas para as quais a bocaiúva representa uma fonte de renda. “Se a casca passa a ter valor tecnológico, produtores, extrativistas, cooperativas e pequenas empresas ganham uma frente a mais de fornecimento ou beneficiamento — e isso significa renda em cima de um resíduo que hoje não tem destino”, afirma Maria Lígia. Na avaliação da coordenadora, o Acrodermo mostra como a pesquisa pode ampliar o aproveitamento da biodiversidade regional e criar novas possibilidades para a cadeia produtiva da bocaiúva. Desafios e próximos passos O desenvolvimento da formulação envolveu diferentes etapas de testes e a integração de áreas como química, biologia, cosmetologia e microbiologia. O objetivo foi avaliar características como segurança, estabilidade e potencial de aplicação do produto. Antolim lembra que um dos primeiros desafios estava relacionado à própria matéria-prima. Como ocorre com outros produtos de origem vegetal, a casca da bocaiúva apresenta variações conforme a procedência, o estágio de maturação dos frutos e as condições de coleta e processamento. “Somou-se a isso o desafio de integrar áreas bem distintas, como química, biologia, cosmetologia, microbiologia e análise de formulações. Fazer esses campos conversarem exige planejamento constante”. A equipe precisou ajustar o processo de extração, definir o tamanho das partículas esfoliantes e estabelecer concentrações que preservassem características como aparência, textura e estabilidade da formulação. De acordo com Lucas, durante o trabalho, um dos resultados observados foi a possibilidade de reaproveitar a mesma casca como partícula esfoliante depois da extração do composto antioxidante. “As imagens de microscopia confirmaram que o formato do material é adequado para a função esfoliante, e essa é justamente uma tendência que o mercado cosmético vem seguindo, com marcas incorporando resíduos vegetais como diferencial”, destaca. A dupla utilização da matéria-prima reforçou a proposta de economia circular que orienta o Acrodermo. Atualmente, o projeto está na fase de validação laboratorial e desenvolvimento dos protótipos da formulação cosmética. As etapas de processamento da matéria-prima, obtenção do extrato, preparo das partículas da casca e avaliação das atividades biológicas já foram concluídas, assim como as primeiras formulações com os derivados da bocaiúva. Agora, o trabalho está concentrado no refinamento da tecnologia. Os pesquisadores buscam otimizar a formulação e ampliar os estudos de estabilidade, segurança e eficácia, além de realizar novas análises microbiológicas, avaliações de textura e reologia e verificar o comportamento do produto em diferentes condições de armazenamento. Depois dessa etapa, o próximo desafio será preparar a tecnologia para uma futura escala de produção, com a padronização da matéria-prima, a estimativa de custos e a adequação às exigências regulatórias. Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: