Entenda a relação de Corumbá com a Guerra do Paraguai, citada por Lula em discurso
Lula chama falas de Milei de 'patacoada' e se refere ao argentino como ‘aquela coisa’ O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou Corumbá (MS) ao co...
Lula chama falas de Milei de 'patacoada' e se refere ao argentino como ‘aquela coisa’ O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) citou Corumbá (MS) ao comentar a Guerra do Paraguai em um discurso que acabou provocando uma crise diplomática entre Brasil e o país vizinho. A cidade foi um dos primeiros territórios brasileiros ocupados por tropas paraguaias durante o conflito, travado entre 1864 e 1870. A declaração foi feita no último dia 24 de julho, em Jacareí (SP), e levou o governo paraguaio a anunciar, nesta quinta-feira (30), a convocação do embaixador brasileiro em Assunção para enviar uma nota oficial sobre as falas do presidente. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Na diplomacia, a convocação de um embaixador costuma ser um gesto de descontentamento e sinaliza que um país considera as declarações ou ações do outro inadequadas. ➡️ Ao defender a tradição pacífica do Brasil, Lula afirmou que o país não poderia esquecer a Guerra do Paraguai, travada entre 1864 e 1870. Mas qual é a relação de Corumbá com a Guerra do Paraguai? Entenda a seguir. "A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos", afirmou. A tomada de Corumbá Corumbá foi um dos primeiros territórios brasileiros ocupados pelas tropas paraguaias durante o conflito. 🔎Essa matéria foi contruída com base em um artigo de 2019 dos historiadores Jérri Roberto Marin e Ana Paula Squinelo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) A invasão ocorreu em 3 de janeiro de 1865, quando soldados comandados pelo general Vicente Barrios chegaram pelo Rio Paraguai e desembarcaram no Porto de Corumbá praticamente sem resistência militar. A ocupação fazia parte da ofensiva paraguaia contra a então Província de Mato Grosso. Como foi a ocupação Não há consenso entre os historiadores sobre as condições da cidade durante os cerca de dois anos de domínio paraguaio. Parte da historiografia, especialmente relatos militares brasileiros, descreve saques, destruição de prédios públicos e episódios de violência contra a população. Outros estudos, porém, apontam que Corumbá permaneceu relativamente organizada durante a ocupação. Há registros de que o comércio continuou funcionando e abastecendo as tropas paraguaias, embora sob controle das forças invasoras. A retomada brasileira Corumbá permaneceu sob domínio paraguaio até 13 de junho de 1867, quando foi retomada por tropas brasileiras. A operação foi conduzida pelo 2º Corpo Expedicionário de Mato Grosso (Mato Grosso do Sul não existia à época), que atravessou o Pantanal e o Rio Paraguai-Mirim para surpreender as forças inimigas. Os combates ocorreram por terra e pelo Rio Paraguai. Segundo registros históricos, 27 soldados paraguaios foram capturados, enquanto morreram o comandante da praça, seis oficiais e cerca de 120 militares paraguaios. Do lado brasileiro, foram registradas oito mortes e 21 feridos. A epidemia após a retomada A reconquista da cidade ocorreu em meio a uma grave epidemia de varíola. A doença se espalhou pela então Província de Mato Grosso e provocou a morte de milhares de pessoas, tornando-se uma das maiores tragédias sanitárias associadas ao conflito. Também há divergências entre os historiadores sobre o estado em que Corumbá foi encontrada após a retirada das tropas paraguaias. Enquanto algumas fontes afirmam que a cidade estava devastada, outras sustentam que boa parte de sua estrutura urbana foi preservada durante a ocupação. A Guerra do Paraguai Guerra do Paraguai que dizimou cerca de 70% da população paraguaia. Domínio Público A Guerra do Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança, foi é considerado o maior conflito armado da história da América do Sul. Travada entre 1864 e 1870, ela colocou o Paraguai contra a aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai. A estimativa de mortos foi de: Uruguai: 3120 mortos; Argentina: 18 mil mortos; Brasil: 50 mil mortos. No caso do Paraguai, não há um consenso do saldo de mortos, no entanto, acredita-se que cerca de 150 mil paraguaios foram mortos no conflito — equivalente de 60% a 70% da população do país. Crise diplomática Após as declarações de Lula, o chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, afirmou que o governo defenderá a "dignidade" e os interesses nacionais diante das falas do presidente brasileiro. O ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, durante coletiva de imprensa Governo do Paraguai Segundo ele, o tema também foi discutido em uma conversa por telefone entre o presidente do Paraguai, Santiago Peña, e o chefe de Estado brasileiro. Em entrevista coletiva, Ramírez Lezcano afirmou que o governo compartilha o sentimento da população paraguaia diante de um episódio "tão sensível" da história do país. "A dignidade do Paraguai não é negociável. Quero que saibam que, sob a liderança do Presidente Santiago Peña, abordamos esta questão ao mais alto nível desde o início", afirmou. Na quarta-feira (29), a Câmara dos Deputados do Paraguai emitiu uma declaração oficial para repudiar a fala de Lula. Segundo o documento, as declarações do presidente "distorcem e minimizam" a dimensão histórica do conflito. Em nota, o órgão afirma que o presidente "desconhece a complexidade dos antecedentes do conflito, o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio" e as consequências geradas pela guerra.